Comida da alma
Janete Thomas
Outro dia eu a reconheci, junto a uma infinidade de pratos finos, inimagináveis para um
simples mortal. Embaixo da foto a descrição do menu, assinado por um chef gourmet famoso.
Em volta da mesa suntuosa, rostos conhecidos sorriam com bons dentes e boca saudável.
Mulheres e homens alinhados e devidamente bem cuidados. Um verdadeiro banquete
palaciano.
Fiquei impressionada com a beleza, o colorido e a nitidez da imagem. Era ela: a costela de
porco, embora maquiada por inúmeras especiarias e flambada por um licor de quatrocentos
anos de nome impronunciável. A câmera conseguiu captar a cor, a textura e até mesmo aquele vapor do cozimento pairando sobre ela, tão familiar pra mim. É como se essa iguaria estivesse cima do bem e do mal. Isso é alta gastronomia.
Em outra mesa, embora modesta, a costeleta vira comida da alma, tanto mais se enfeitada
com pétalas de flor e servida com salada de batatas. A verdadeira arte de cozinhar é coisa de
mãe, é a carne sendo temperada na tábua de picar e o cheiro de alho e limão, para muito além das quatro paredes cozinha, atiçando o estômago das crianças. É almoço de domingo. É receita de família. São as batatas e os ovos pipocando na panela de alumínio, espelhada pelo uso de Bombril, hoje é considerada anti-higiênica e foi substituída pela antiaderente. Minha mãe colocava gotas de vinagre na água do cozimento para que não perdesse o brilho.
A toalha branca que durante muito tempo serviu as costeletas de porco com salada de batatas, de tanto ser alvejada no sol e no anil, se rasgou e foi substituída por outra de plástico. Mesmo assim a combinação enchia os olhos e estimulava o apetite.
Em volta da mesa simples, bem lavados, vestidos e descalços, sorríamos com dentes de leite
ou banguelas, e a boca faminta não cabia em si, porque tudo era muito bom. Isso é comida
alma.