sábado, 27 de junho de 2020

Os porcos, os livros e o comboio

Helena Domeneghini

Apesar do título longo, incomum e engraçado, o filme A Sociedade Literária e a
Torta de Casca de Batatas surpreende. E a razão disso não está apenas em seu nome; vai
além e adentra em uma história triste que revela o horror de uma guerra (no caso, logo
após o fim da segunda), os traumas por ela causados e as alternativas que as pessoas
buscam para continuar vivendo em meio a esse ambiente conflagrado.
O coitado do porco escondido dos alemães, que confiscavam tudo para benefício de
suas tropas, virou banquete para um grupo de moradores da ilha britânica de Guernsey e
reuniu um grupo de amantes da literatura. A torta de casca de batatas, como símbolo do
racionamento imposto pelo conflito mundial, serviu de álibi para os transgressores,
denominou o grupo e fortaleceu o convívio dos vizinhos.
Esse é o eixo do filme, porém, quem gosta de literatura, não precisa de subterfúgios
nem de incentivo para ler. Quem ama, devota-se. Quem aprecia, sucumbe. Quem não tem
o hábito, o adquire em pouco tempo. Aqueles mais impetuosos fazem o que a jovem
escritora Juliet Ashton fez; foi atrás para ver como e porquê um jovem fazendeiro de uma
ilha no meio do Canal da Mancha teria interesse por uma obra de Shakespeare para
crianças.
A película despertou em mim três memórias da infância.
Primeiro, me transportei para o chiqueiro que existia no terreno onde morávamos.
Na parte de cima ficava a casinha de madeira, no meio, a horta, árvores frutíferas e o
galinheiro e, bem mais para baixo, o galpão dos porcos, que eu escalava para sentar no
telhado, embaixo dos galhos da pereira e comer a fruta in loco.
Depois, veio a imagem da menininha folheando revistas e livros, sem entender o
que estava escrito, mas com o coração batendo alegre apenas pelo ato em si; o contato
com aqueles seres de papel, tão vivos e instigantes. Até hoje, a leitura é quase um ritual;
dependendo do livro, me desloco para dentro dele.
Por último, a mais triste recordação, é da menina, sem entender, mas intuindo algo
terrível, embaixo da cama dos pais, chorando copiosamente e dizendo “eu vou morrer”
porque na estrada federal em frente à casa passavam comboios de caminhões e tanques
do exército rumo ao centro do país.
TUDO JUNTO E MISTURADO

Rosana da Silveira

Não havia outro jeito, a não ser transformar os vários potinhos de sobras de
comidas em outra refeição. E assim o fiz!
Peguei uma tigela e fui colocando dentro, todas as sobras como: Arroz, carnes, linguiça, peixe, fígado, batatas, saladas inclusive a de alface e também o feijão. Que mistureba! Acrescentei a farinha, ovo, sal, cheiro verde e água.
Depois de misturar tudo, é só fritar e os bolinhos estão prontos.
Não é o tradicional bolinho de arroz conhecido de todos, mas é um genérico inventado por mim. Ele nunca fica igual porque muda os ingredientes.
Diz a lenda que o bolinho de arroz foi inventado no Japão, e era consumido pelos samurais. Eles levavam o bolinho em suas viagens, dentro de bambus, para comerem durante as batalhas. A receita original não é igual ao modo como fazemos no Brasil: por lá, ele tem um furo no meio, para rechear. Famoso em todo o Brasil, o bolinho de arroz não foi criado por aqui, como muita gente pode pensar. Acreditem: a origem dele também é controversa!
Existe uma versão que garante que o bolinho de arroz foi criado na Itália. Um bolinho de risoto. E, segundo os ítalo-brasileiros, foi essa a inspiração para o osso bolinho de arroz.
O que sabemos de fato é que o bolinho de arroz ganhou sua própria versão
no Brasil, e por aqui faz muito sucesso. Servido como aperitivo, em cardápios de bares e restaurantes, ele arrasa. O bolinho combina bem no verão com uma cerveja, no café da manhã ou da tarde e até mesmo no jantar, pois é um acompanhamento de entrada muito versátil. 
Minha filha quando pequena ficava em período integral na escolinha e eu acrescentava este quitute para reforçar seu lanche. Um dia uma das “tias” me perguntou sobre o tal bolinho cheiroso que deixava todos com água na boca.
Contou também que como sobrou ela experimentou um e achou delicioso, inclusive ao examinar o que tinha dentro encontrou até feijão. Pediu a receita.
Falei que a receita era muito simples, é só pegar aquelas sobras de comidas que
estão na geladeira. Adorou a ideia dizendo que vai experimentar faze-lo.
No início do ano visitei meu irmão e vi várias sobras na geladeira. Por isso, resolvi incrementar o jantar com meus bolinhos. Minha irmã entrou repentino cozinha a dentro, talvez pelo cheiro maravilhoso dos bolinhos e ao experimentar um se deu conta de que não era o tradicional bolinho de arroz. Contei que este bolinho é especial, é tudo junto e misturado. Ela adorou a ideia e irá fazer com suas sobras.
Na minha casa é assim: sobrou, quitute virou!
Experimente esta ideia e nada de desperdiçar comida.
Ossobuco na cerveja

Lucia Zanatta

Uma receita de família é muito mais que a dosagem descrita de um combinado de
ingredientes.
Há de ter contida sua expressão, quase holográfica, que cada vez que ela se nos apresente, possa vir à memória a salivação,um desejo quase imediato a resgatar todas nossas melhores lembranças. 
A receita escolhida tem um vasto caminho percorrido.Quando decidi qual seria,nem tinha ideia de quão importante ela era pra mim.

O ossobuco na cerveja já me pertence por usucapião!
São quase 4 décadas que já nem lembro mais como veio parar e porque,em minhas mãos. Não sei se do programa de variedades de Célia Ribeiro e Tânia Carvalho na TV gaúcha em 1900 e pouquinho, ou se na revista Nova,revista feminina de vanguarda, onde Marina Colasanti estreou o seu caminho como jornalista,e me encantava com suas palavras.Talvez em algum caderno está agora com certeza amarelado,como minha certidão de casamento. Foi o primeiro jantar que ofereci a nossos amigos.Que bem me lembro,caiu nas graças de todos,assim como o célebre pudim de leite que tem também sua história por aqui.
Ansiosamente organizei o jantar com primor e alegria como tudo que fiz naquela pequena e
graciosa moradia. Acho que a perfeição da execução do prato sucedeu-se pelo impregnado
sabor da lua de mel. O ossobuco da receita tem que ter um corte razoavelmente fino e o importante é que venha abraçado ao osso, ainda com o tutano.

Salgo apenas com sal fino e logo passo na farinha de trigo.Gosto de fazê-lo numa panela grande de ferro bem quente. Deixo dourar de um lado e viro,deixando o tutano se misturar a farinha que já trás um aroma especial neste momento.Coloco num prato refratário, pois vai ao forno e este já deverá estar bem quente. Noutro recipiente douro alho,cebola, pimentões amarelos e vermelhos, salsinha e cebolinha,a vontade. Coloco tomates maduros picados e o fruto de uma pimenta dedo-de-dama,sem sementes,o suficiente para dar sabor e não ardor. Enquanto termino os bifes, o molho se faz.Na panela dos bifes a farinha e o tutano,um tanto já escuros,recebem pouco a pouco o molho deixando o tomate aos poucos se apresentar escuro.Coloco também aos poucos uma garrafinha pequena de cerveja preta e uma quantia razoável,mas não predominante,de parmesão se possível, ralado na hora.Largo por cima dos bifes que deverão estar no forno ainda e após uns 10 minutos la dentro organizo o que será servido, colocando-o à mesa. Está e a receita padrão,que modifico a cada convidado querido que se sente a nossa mesa a cada aniversário de meu filho,que pede por favor,a execução deste delicioso prato. O ossobuco, às vezes, leva cogumelos,ou palmito,ou aspargos,ou cenoura, ou um combinado de legumes. E cada vez que é feito enche-me de alegria. Acho que o mel da lembrança o enriquece quando contrasta com a acidez do molho, robusto, forte e perfumado.
Comida da alma
Janete Thomas

Outro dia eu a reconheci, junto a uma infinidade de pratos finos, inimagináveis para um
simples mortal. Embaixo da foto a descrição do menu, assinado por um chef gourmet famoso.
Em volta da mesa suntuosa, rostos conhecidos sorriam com bons dentes e boca saudável.
Mulheres e homens alinhados e devidamente bem cuidados. Um verdadeiro banquete
palaciano.

Fiquei impressionada com a beleza, o colorido e a nitidez da imagem. Era ela: a costela de
porco, embora maquiada por inúmeras especiarias e flambada por um licor de quatrocentos
anos de nome impronunciável. A câmera conseguiu captar a cor, a textura e até mesmo aquele vapor do cozimento pairando sobre ela, tão familiar pra mim. É como se essa iguaria estivesse cima do bem e do mal. Isso é alta gastronomia.

Em outra mesa, embora modesta, a costeleta vira comida da alma, tanto mais se enfeitada
com pétalas de flor e servida com salada de batatas. A verdadeira arte de cozinhar é coisa de
mãe, é a carne sendo temperada na tábua de picar e o cheiro de alho e limão, para muito além das quatro paredes cozinha, atiçando o estômago das crianças. É almoço de domingo. É receita de família. São as batatas e os ovos pipocando na panela de alumínio, espelhada pelo uso de Bombril, hoje é considerada anti-higiênica e foi substituída pela antiaderente. Minha mãe colocava gotas de vinagre na água do cozimento para que não perdesse o brilho.
A toalha branca que durante muito tempo serviu as costeletas de porco com salada de batatas, de tanto ser alvejada no sol e no anil, se rasgou e foi substituída por outra de plástico. Mesmo assim a combinação enchia os olhos e estimulava o apetite.

Em volta da mesa simples, bem lavados, vestidos e descalços, sorríamos com dentes de leite
ou banguelas, e a boca faminta não cabia em si, porque tudo era muito bom. Isso é comida
alma.

sexta-feira, 26 de junho de 2020


 GASTRONOMIA OU ALIMENTAÇÃO

Ivone Renck

                Estamos numa época de grande transição, o que será após a pandemia? E esta pausa reflexiva da quarentena? Em 1976 Milton Nascimento cantou profeticamente-“Sei que nada será como antes, amanhã“
                 Nesta época atual se potencializou a diferença social, uns com tanto comer-e adoecendo por isso- e outros com fome.  A revolução francesa foi causada pela fome, em uma fase climática crítica, onde os alimentos sumiram da população, entretanto, na corte se banqueteavam. “Não tem pão que comam Brioche” na era napoleônica não foi diferente, na nova “ corte” o mesmo desperdício.
                Minha intenção não é ser panfletária, mas colocar a alimentação num outro patamar, o da saúde- meu foco. Hipócrates no século V a.c. dizia “Sejam os vossos alimentos os vossos remédios”, e pioneiramente atribuiu estados físicos e emocionais à alimentação. Sua teoria humoral, caída em descrédito no século XX, hoje tem sua releitura, com a biologia molecular e microscopia eletrônica. A doença não cai do nada, vem de um desequilíbrio da MATRIZ EXTRA CELULAR, vale dizer, o terreno biológico deve conter os nutrientes em quantidade, qualidade e equilíbrio entre acidez e alcalinidade.
                Inspirado em antigos conhecimentos o jejum é curativo. Está em moda o jejum intermitente, que é muito bom, mas tem que saber como fazer, tem que estudar ou ser muito bem orientado. Sair de um jejum tem cuidados especiais. Tempos atrás um homem jovem perdeu-se no interior do Cânion do Itaimbezinho, veio esquálido, desnutrido, quando depois de dias foi resgatado. Se tivesse conhecimento poderia ter comido inúmeras plantas nativas. estas podemos chamar de Ervas Daninhas Nutro-terapeuticas. A notícia continuou, contando que a mãe, em estado de felicidade do reencontro, disse ao repórter, que preparou o bolo de chocolate que ele gostava. Nem imagino em que estado ficou a sua saúde.
                 Podemos nos alimentar com prazer, não só pelo prazer. Aliás o paladar é treinável em 21 dias, se tiver para isso vontade, podemos aceitar novos hábitos. Hoje não se fala mais em dieta ou regime alimentar e sim em educação alimentar. Não digo reeducação pois nunca fomos educados. Na minha época na faculdade tivemos, em 6 anos, duas aulas de alimentação, considerado perda de tempo, na nossa ignorância, pois queríamos estudar doenças e seu remédios.
                Reconheço a dificuldade de modificar hábitos, requer um conhecimento e um  esforço, mas se for pra melhor, vale a pena tentar, antes que o médico venha exigir isto.

SOPA DE FEIJÃO 
Glenda 

Tenho o hábito de cozinhar feijão na segunda-feira. Minha mãe fazia também. Meio quilo é o que cabe na minha panela de pressão. Até um tempo atrás eu fazia um quilo. O feijão ficava sem caldo, meio só grãos. Daí descobri o segredo. Só meio quilo na panela, produz um feijão mais saboroso com muito caldo. Bem temperado com sal, alho, cebola, bacon, louro, pimenta, salsa e cebolinha, todos fritos em alguma gordura, pode ser banha ou óleo. Metade dele pronto vai pro frízer pra semana seguinte.

Aquela metade vai pra mesa na segunda-feira. O que sobra vai pra geladeira e será aquecido na terça-feira. Quando vem quarta ou quinta-feira se não tenho inspiração pra fazer comida que combine com feijão. Aquele pouco que está lá na geladeira, vai
virar a sopa de feijão. Minha mãe fazia minestra ou minestrone, como se dizia em casa
de italianos, que é a sopa com massa e uma ou outra batatinha picada. Aumentando os temperos pois ao feijão era acrescentada água pro caldo. Batia o feijão no liquidificador e ia pro fogão a lenha ferver e colocar os ingredientes. Era um panelão, pois tinha que servir no mínimo dez bocas. A sopa de feijão que faço é diferente. Trituro o feijão com o mix é bem mais fácil da lavar que o liquidificador e faz o mesmo trabalho. Pico todo tipo de verdura que tenho na geladeira, cenoura, chuchu, moranga, cebola, batata doce, esta vai em
pedaços maiores pra não deixar a sopa muito doce, não pode falta couve ou pelo menos repolho. O caldo onde foi acrescentada água fervendo vai recebendo as verduras pela
ordem de tempo de cozimento. Pra completar, linguicinha cortada em rodelas, aquela fininha que vem em embalagem com quatro ou cinco.

Alegria na família, adoram minha sopa de feijão, sem massa. Se é pra me agradar, não sei. Mas, semana sim, outra também, tem sopa de feijão no almoço.

Sou da cozinha

Clayton Oppitz 

Tempos idos aquele em que a mulher era a dona absoluta da cozinha. Mudou! Mudou muito e vai mudar mais. O homem moderno aprendeu a dividir com as mulheres as tarefas domésticas, com destaque nas artes culinária.

Aprendi muito de cozinha pelo sistema tira a mão daí. (espiando panelas e ganhando tapinhas nas costas da mão). O cozinheiro perde a mão com intromissões, até o vinho parece azedar com palpites. Mas, fora algumas amuações, é prazeroso construir uma boa refeição para quem se ama. Pegar alguns ingredientes, experimentar as dosagens, mistura-los, acertar a caloria, o tempo e esperar por pelo momento especial de servir.

A minha memória não cuidou de guardar quando, ou como foi que me iniciei nas artes culinárias. Por alguns riscos em minha linha de tempo, na direção ao passado, posso iniciar ao remonte das lembranças.

Eram os anos dourados. Uma época de libertação, segura para sairmos sem rumo, e passar dias acampados pelas matas que adornavam Canela. Para comer: mochila lotada de bolachas, pães, salsicha Swift, arroz, batata, linguiça e café. Numa panela de ferro aquentada no fogo de chão, atirávamos sem ordem alguma a linguiça cortada em rodela, batatas em cubos médios e o arroz. Chamávamos de carreteiro.  Esse prato exótico fica melhor quando acompanhado do café na brasa. Esse sim, quem nunca tomou não sabe o que é café. É fácil de fazer, em uma caneca de água fervendo em fogo de chão misture o café em pó e para decantar a borra coloque um tição em brasa. Nossa! Vai saudades.

Essa variação de carreteiro eu pratiquei por todo o tempo que estive na Universidade. Ao trocar o café pela caipirinha, ela ganhou ares de maturidade.  A receita continua sagrada e nada vai substituir seu eterno sabor. Nem mesmo o risoto, que me orgulho de fazer bem, mexido com a paciência da idade vai tomar seu lugar.